Os animais se tornaram membros da família (e nós não imaginamos a vida sem eles)

Atualizado: Abr 29


Acredita-se que as pessoas têm uma necessidade emocional de se conectar com a natureza e os animais, que se manifesta, por exemplo, no cuidado com o meio ambiente, nas visitas aos jardins zoológicos, na interação com um cão ou gato, ou ainda observando os peixinhos de um aquário


Uma possível justificativa para essa necessidade de conexão é a hipótese da biofilia, popularizada pelo biólogo americano Edward Wilson. De acordo com essa hipótese, a dependência humana da natureza vai além de uma necessidade física, mas inclui também uma satisfação estética, intelectual, cognitiva e espiritual. De fato, não é preciso ser nenhum pesquisador de Harvard para se confirmar a satisfação que o contato com os animais nos proporciona em todas essas dimensões.


A história da nossa relação com animais é bem antiga. Segundo o eminente historiador israelense Yuval Harari, foi há cerca de 12 mil anos, durante a chamada Revolução Agrícola, que a espécie humana começou a se instalar na proximidade de fontes naturais de água, deixando de ser nômade e passando a defender seus rebanhos dos predadores. O homem passou então a desenvolver estratégias, como caçar os carneiros mais velhos, poupando os jovens férteis para proteger a vitalidade do rebanho; abater precocemente os carneiros mais agressivos; cevar os cordeirinhos para que estivessem mais gordos ao abate. Ao mesmo tempo, um cordeirinho já passeava no colo de uma criança, dando origem ao elo de afetividade que, aos poucos, foi se construindo entre seres humanos e animais.


A domesticação dos cães e gatos foi um importante acontecimento na história da humanidade. O tempo e local exatos do surgimento da espécie canina não são um consenso. Os padrões de variação genômica indicam o início da domesticação há, pelo menos 10.000 anos a.C., no sudeste da Ásia. Porém, há registros fósseis encontrados na Sibéria que evidenciam a existência de cães há pelo menos 33.000 anos. Já a domesticação dos gatos data de período mais recente. Supõe-se que o gato doméstico (Felis catus) seja descendente do gato silvestre (Felis silvestres) e que seu processo de domesticação ocorreu há cerca de 5.000 anos, no Antigo Egito, onde passaram a exercer importante papel no controle de roedores, que apareciam em busca de grãos.


Desde a sua domesticação os animais passaram por modificações morfológicas, através da seleção artificial para formação das raças e alterações comportamentais, tornando-se cada vez mais próximos dos humanos. No Brasil, no final do séc. XX os animais deixaram os quintais para viverem dentro dos lares.


A partir da década de 1970, e mais proeminentemente nos últimos anos, os cães e gatos deixaram cada vez mais de serem vistos como utilitários para guardar a casa ou caçar ratos e se tornaram membros da família. Dados do último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicados na Pesquisa Nacional de Saúde (2013), revelam que o número de cães domiciliados no Brasil (52,2 milhões) ultrapassa o número de crianças de 0 a 14 anos (44,9 milhões).


A importância da relação entre as pessoas e seus animais de estimação foi enfatizada pela introdução do conceito do Vínculo Humano-Animal, definido pela A American Veterinary Medical Association como:


“ ... uma relação mutuamente benéfica e dinâmica entre pessoas e animais que é influenciada por comportamentos que são essenciais para a saúde e o bem-estar de ambos. Isso inclui, mas não está limitado a interações emocionais, psicológicas e física entre pessoas, animais e o ambiente. O papel do médico veterinário no vínculo humano-animal é maximizar o potencial dessa relação entre pessoas e animais”


Vivemos o momento das famílias multiespécie, onde os animais muitas vezes ocupam o status de filhos e, portanto, não conseguimos imaginar nossa vida sem eles. Portanto, embora saibamos que o tempo de vida dos cães e gatos é naturalmente mais curto do que o nosso, sua morte, em certo ponto, representa uma variação de um padrão esperado, ondem os filhos veem os pais morrerem e não o contrário. A morte de um animal de estimação é como a morte de um filho e representa uma inversão de um ciclo natural.


A evolução do relacionamento entre seres humanos e animais de companhia teve um grande impacto sobre o foco dos serviços veterinários. Desde a fundação da primeira escola de medicina veterinária em Lyon, na França, por muitos anos dedicou-se especial atenção aos animais que serviam aos humanos em trabalho e como fonte de alimento. Entretanto, em meados do século XX, uma grande porcentagem dos médicos veterinários começou a dedicar atenção exclusiva aos animais de companhia e, em 2015, essa porcentagem era maior do que 65% nos Estados Unidos.


A intensificação nas relações sociais entre tutores e seus animais de estimação tem sido associada a expectativa crescente de uma assistência médica da mais alta qualidade. Assim, os cuidados compassivos e a comunicação respeitosa passaram a ser habilidades médicas requeridas pelos tutores para a adequada assistência aos seus animais, principalmente no que tange o final de vida de seu animal.


Visando atender a essa demanda de um cuidado especializado para os animais com doenças crônicas ou condições graves, muitas vezes fora de possibilidade de cura ou reversão, buscamos o aprofundamento dos estudos dos Cuidados Paliativos. À semelhança do que observamos na prática da medicina paliativa na área humana, estamos transpondo para a medicina veterinária uma abordagem que visa a ofertar qualidade de vida para o paciente, bem como suporte à família no enfrentamento de uma condição que ameaça a vida do paciente.


A medicina paliativa sustenta-se em princípios endossado pela Organização Mundial de Saúde que focam em bom controle de sintomas do paciente para alívio do sofrimento, acolhimento e suporte à família através de uma boa comunicação empática e compassiva, cuidando também dos aspectos de ordem emocional e suporte na vivência do luto.


Para saber mais sobre a prática dos Cuidados Paliativos em medicina veterinária, acompanhe o trabalho do Instituto Kairós, primeiro instituto focado exclusivamente na assistência e formação em Cuidados Paliativos para cães e gatos.


Vinícius Perez - Médico Veterinário Paliativista

Instituto Kairós


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