A perda de um animal de estimação e importância dos Cuidados Paliativos



Animal de estimação. Acho interessante essa denominação: estimação. Por mais que gostemos muito de algumas pessoas, não dizemos que elas são de estimação. Isso já diz muita coisa sobre o que sentimos por um animal que escolhemos para compartilhar a vida conosco ou que, muitas vezes, nos escolheram.


Estima, apreço, valor, amor, segurança: são algumas palavras que tentam descrever o que sentimos por nossos animais. Não é à toa que diariamente ouço frases como “ele é como um filho para mim”. A mais recente foi “mais que um filho. Filho responde, deixa a gente com raiva, mostra as suas imperfeições humanas… Além disso, o Bolinha é meu companheiro durante 24 horas”. Outras frases costumeiras: “não me imagino vivendo sem ela”, “só de pensar na possibilidade de que ela pode morrer, meu coração já aperta”.


É muito triste que a nossa sociedade nos tenha escondido tanto da morte, principalmente de nossos animais, que tem a expectativa de vida tão menor que a de um humano. Com exceção de jabutis e outras espécies “não convencionais”, um cão ou gato pode chegar ao máximo na casa dos 20 anos. Isso quer dizer que, se você tem 20 anos e adota um filhote, mesmo que ele viva o máximo da expectativa de vida, você acompanhará este processo de morte. E essa é uma notícia ótima, porque significa que vocês viveram muitos anos juntos! Um vida inteira compartilhando o amor que só eles sabem prover!


Nesse texto irei falar sobre a perda de nossos animais e se é possível tornar esse processo menos conturbado.


A perda


Quando falamos de perda, geralmente vem à cabeça o significado de morte. Entretanto quando o nosso animal adoece também é como se perdêssemos algo. O animal saudável que nos acompanhava passa a ser alguém que necessita de mais cuidados, o que pode gerar preocupações. Se essa doença for ameaçadora da vida, essa situação nos coloca de frente ao processo de finitude.


Esse momento pode ser fruto de muito sofrimento, diversos tipos dele - social, físico, emocional e espiritual. Em outro texto, falamos mais sobre essas divisões.


E tudo o que sofre precisa de cuidado. Pode ser que neste momento, o ser que mais precise de atenção seja você ou alguém da sua família, que está em sofrimento. Neste ponto, é importante dizer que o cuidado é personalizado.


Como podemos nos preparar?


A doença fisiologicamente falando, é igual para todos. O câncer é uma proliferação de células anormais, independente de ser um cão, gato, humano ou qualquer outro ser vivo. Entretanto, a experiência de doença é única e o impacto em cada pessoa do âmbito familiar também.


Por exemplo, para alguém que já acompanhou uma pessoa que foi diagnosticada com câncer e faleceu por esse motivo, ao escutar o mesmo diagnóstico em seu animal, verá as experiências vividas virem à tona e esse pode ser o motivo de sofrimento. Por outro lado, quem nunca passou pela mesma situação pode sofrer por ter ideias e percepções diferentes sobre o curso da doença. É nesse sentido que digo que o cuidado é individual. Cada família vai precisar ter um tipo de abordagem.


O mesmo acontece com a morte física: perdemos alguém que não está mais entre nós. Mas, assim como a doença a experiência da morte também pode divergir entre membros de uma mesma família. O vazio que ficou após a partida Nina pode ter um significado diferente para a Dona Cida, que passava a maior parte do tempo com ela e outro para seu filho que a visitava algumas vezes por semana. Por esse motivo, é de extrema importância considerar a biografia do animal para a construção de um plano de cuidado que faça sentido para todos.


Depois da partida


Essa dor - ou sofrimento, como preferir - pode doer de diversas formas. Nem sempre estamos em um ambiente que nos acolha. O luto após a perda de animais pode não ser reconhecido e frases como “você adota outro”, “tem mais dois em casa, você tem que ser forte para cuidar deles” podem machucar.


Ninguém é obrigado a ser forte, principalmente nessas situações. Pode fraquejar, chorar, agir como você conseguir nesse momento. O importante é pedir ajuda para amenizar essa dor. Isso pode ser feito de diversas maneiras: conversar com alguém próximo, fazer uma oração, meditar, ouvir música.


Na verdade, esse processo sempre nos deixa marcas. Você pode ser surpreendido com a lembrança do seu companheiro que partiu num final de tarde, que era a hora que ele gostava de passar, ao chegar em casa, no petisco que ele mais gostava e você se controlava para não ceder sempre que ele pedia, no meio do trânsito ou durante uma reunião de trabalho.


Só quem tem o privilégio de amar consegue sentir saudade.


Saber identificar sofrimentos e tentar aliviá-los é uma missão para nós: médicos veterinários paliativistas. Através da especialização, encontramos quem já entende como cuidar de quem está vivendo até o dia de sua morte há algum tempo. Com elas e eles, entendemos a importância de aliviar sintomas físicos, reconhecer que o nosso foco de cuidado também deve ser a família que sofre junto com aquele animal, hoje parte de nossas famílias e sobre o quanto o início precoce dessa abordagem auxilia a promover um cuidado mais adequado para melhora de qualidade de vida. Permitir que o fim seja repleto de sentido, cuidado e amor pode não ter o efeito analgésico da dor que se é sentida. Entretanto, possibilita uma despedida digna de quem viveu plenamente dentro de nossos lares e corações.


Eles se foram, mas nós estamos aqui, os mantendo vivos, dentro de nós.



Bruna Bianchini Real - Médica Veterinária Paliativista

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